Piores Decisões da História Ep08: Papa Alexandre III e a busca de Preste João

Voltamos neste episódio com o tema religioso, agora com o Papa Alexandre III, falecido em 1181. Sua fé em mover uma Cruzada para encontrar no Oriente um exército inexistente foi movida por três séculos de crença em um mundo paralelo  e glorioso. Como a fé, cega, pode levar reinos para o buraco…

Se houvesse lendas urbanas na Europa medieval, a de Preste João se destacaria como a mais popular em qualquer pesquisa de opinião pública. As lendas urbanas não são assim tão importantes, desde que não se acredite nelas. Porém, despachar mundo afora milhares de guerreiros na expectativa de se aliar a alguém que na realidade não existe, simplesmente por acreditar no mito, é algo que demonstra a mais pura irracionalidade de fé.

Como ocorre com a maioria das lendas uma alta dose de verdade – ou de verdades, na medida em que Preste João esteve presente na vida europeia durante muitos séculos – permeia a crença. Até hoje ainda é difícil decifrar onde terminava a realidade e começava a ficção. A essência do mito de Preste João despontou em 1165, quando o imperador bizantino trouxe uma carta, com cópia para o papa e para o Sacro Imperador Romano-Germânico, de um grande rei do Oriente –  cujo remo se situava em algum lugar da Ásia – chamado Preste (ou presbítero) João. Era um rei cristão que governava um império vasto e perfeito, cuja missão era derrotar os muçulmanos e oferecer ajuda aos cruzados. Na época, a Segunda Cruzada tinha terminado havia muito tempo, com péssimos resultados para os cristãos. Como estímulo e como confirmação da fé, a carta foi muito oportuna.


O nome já era conhecido nas cortes da Europa, mas, até a chegada da carta, ninguém acreditava nele. Em 1144, o cruzado Oto de Freising trouxera a notícia desse grande soberano, descendente de um dos Três Reis Magos, governante de um reino rico e poderoso, que derrotara os medas, os persas e os assírios, e que enviara um exército para ajudar os cruzados, impedido de chegar ao destino pelas enchentes do rio Tigre.

A carta confirmava os relatos de Oto embora adornada por muitas narrativas fantásticas de riqueza, e localizava Preste João no “Reino das Três Indias”, que se estendia, essa era a história, da Torre de Babel até o Sol Nascente. A Segunda Cruzada fora o mais rematado desastre, de ajuda para os infaustos cruzados franceses e alemães, que tinham sido escorraçados pelos turcos seljúcidas e que nem mesmo conseguiram conquistar Damasco como consolação, fora desculpa conveniente para os cristãos desconcertados.

A lenda logo ganhou força. Em 1177, o papa Alexandre III enviou seu médico pessoal, Mestre Felipe, a Preste João, com uma resposta, pedindo ajuda.

Mestre Felipe partiu para a Palestina, e dele jamais se teve notícia. Alguns viajantes, porém, começaram a relatar que eles próprios tinham estado no reino de Preste João e confirmaram tudo o que dizia a carta, acrescentando alguns adereços próprios. Giovanni Capini descreveu o exército de Preste João como “fileiras de soldados de cobre, recheados de fogo, que explodiam ao alcançarem as linhas inimigas”. Exemplares apócrifos da carta, cada vez mais condimentados, circularam durante mais de cem anos. No século XIV, John de Mandeville, aventureiro britânico, escreveu o mais fantástico de todos os relatos.

Havia pelo menos grãos de verdade na história. São Tomé, um dos apóstolos, sem dúvida, levou a palavra de Jesus ao sul da Índia. Ainda há uma forte seita cristã com o nome dele em Kerala, com uma cruz de ouro em honra ao santo. A Igreja Nestoriana de lá se expandiu para outras regiões da Ásia; por volta de 1100, porém, grande parte de seus adeptos já tinham adotado a religião muçulmana. Muitos dos ornatos da versões posteriores da carta correspondem exatamente descrições das batalhas de Alexandre, o Grande em outras crônicas – as mulheres amazonas, os soldados explosivos, a salamandra mágica -, não restando dúvida de que esses aspectos do mito de Preste João foram hauridos dessas fontes. Por volta do fim do século XII, não muito depois da época das cartas originais, o exército de Gengis Khan, de fato, devastava os exércitos muçulmanos na Ásia Central, embora, evidentemente, a participação cristã não passasse de devaneio.

Por volta de 1400, contudo, muitos exploradores de verdade, inclusive Marco Polo, já tinham feito profundas incursões na Ásia, das quais retornaram com segurança, jamais encontrando Preste João, o que deixava muito claro que não havia um grande reino cristão na Ásia. Intimoratos, os verdadeiros crentes simplesmente retrucaram que tinham cometido um erro: em vez de Ásia, era Abissínia, o reino da Etiópia, na África Ocidental.

Mais de uma vez, não havia dúvida de que a cristandade se estendera até lá; com efeito, os rastafarianos são basicamente descendentes de um grupo que fora convertido por missionários cópticos, que vieram por volta do ano 400. E, em 1488, um príncipe de Benin visitou a corte portuguesa e relatou a existência de um grande e poderoso rei dos Mossi que foi interpretado como Reino de Moisés. A notícia avivou mais uma vez os velhos rumores, o suficiente para que os exploradores portugueses que circum-navegavam a África redobrassem a atenção e para que os mapas da África da época começassem a mostrar a terra de Preste João, aproximadamente na área da Etiópia. A lenda, apesar do fato de que Preste João, naquela época, já teria quase 500 anos, sobreviveu até a descoberta das Américas, quando a busca do Eldorado matou Preste João em definitivo.

Nada disso, porém, justificaria a inclusão de Preste João nesta série de podcast, não mais que os atuais relatos sobre abduções de terráqueos por  alienígenas, não fossem os danos reais daí decorrentes ao longo dos séculos. Parece provável que a carta original tenha sido escrita pelo Sacro Imperador Romano-Germânico Frederico Barbarossa, no intuito de desmoralizar o papado.

Se, algures, já houve um reino cristão perfeito, decerto não foi em Roma. Barbarossa definitivamente conhecera Oto.

No romance histórico Baudolino, de Umberto Eco, todo o mito é engendrado por um aventureiro que Barbarossa despachara para estudar com Oto. O livro de Eco mistura realidade com ficção e a procura de Preste João com a busca do Santo Graal. Mas as pessoas realmente acreditavam em tudo isso e enviaram milhares de homens para morrer de forma estúpida em sucessivas cruzadas, na expectativa de que encontrariam a Terra Sagrada de Preste João e seu exército mágico para conquistar Jerusalém de uma vez por todas.



Fabio Camatari Escrito por:

Dinheiro não traz felicidade... mas compra quadrinhos, que é quase a mesma coisa!