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It’s the end of the world as we know it, and feel fine…
O episódio de hoje não é sobre a banda REM, mas tem tudo a ver com o fim do mundo, ou pelo menos, pânico em massa, superstição e medo do desconhecido, que levou uma cacetada de pessoas de fé, para uma morte antes do “fim”.
Falaremos do Papa Silvestre e o Fim do mundo!

Não é muito elogioso para o segundo milênio o fato de ter sido delimitado por dois surtos de estupidez em massa em escala global. Escalar montanhas para esperar o fim do mundo no pico talvez tenha sido mais compreensível, considerando-se a extensão dos conhecimentos em 999, do que, mil anos depois, sacar dinheiro freneticamente dos bancos com medo de que os computadores o engolissem. Ao longo de um milênio, muitos foram os acessos de insensatez, especialmente a crença na perversidade das minorias e a disposição para persegui-las como encarnações do mal, desde o
extermínio dos judeus, na Alemanha nazista, até a caça às bruxas, nos primórdios da Europa moderna, para não mencionar versão mais recente, no macarthismo americano.

O século X foi denominado Século de Chumbo e de Ferro. Os sarracenos, os mouros espanhóis, os vikings, os búlgaros e os cavaleiros magiares, todos invadiram a Europa. Os chineses inventaram a pólvora. Fundou-se Daca, hoje capital de Bangladesh. Os hútus chegaram à Ruanda de hoje, logo tornando-se mais numerosos que os vizinhos tútsis, embora esperassem até quase o milênio seguinte para tentar eliminá-los.

Em Roma, papas rivais aprisionaram, mataram de inanição, mutilaram e assassinaram uns aos outros. Erik, o Vermelho (que já teve o episódio numero 06 todo dedicado a ele e seu belo golpe imobiliario), provavelmente foi o primeiro homem branco a atingir o continente norte-americano. Em Etelredo, os ingleses tiveram um rei tão fraco que foi apelidado de “o Despreparado”. Fomes recorrentes provocaram inanição em sucessivas regiões, resultando em canibalismo generalizado. Essas fomes, por sua vez, foram seguidas de epidemias resultantes da ingestão de grãos infectados.

Portanto, no ano de 999, um surto de terror quanto ao fim do mundo se difundiu entre as massas. Para que a superstição se alastrasse, não foi preciso muito mais que os monges e mendicantes deambulatórios a propalarem que o milésimo aniversário do nascimento de Cristo deveria ter algum significado místico em um mundo tão brutal quanto aquele.

O décimo século não foi brilhante na história do papado. Mil anos depois do reinado de São Pedro, sucessivos papas foram brutalmente assassinados e depostos, e a Igreja enfrentou 50 anos do que ficou conhecido como pornocracia, ou “reino das meretrizes”, em que mulheres fortes dominavam o papado. No fim do século, imperadores do Sacro Império Romano-Germânico que, a princípio, deviam ser nomeados pelos papas, tinham mais ou menos virado a mesa e assumido o controle de quem se tornava papa.

Bento V durou apenas um mês, antes de o cetro pontifício quebrar-se sobre sua cabeça, condenando-o a passar o resto da vida num mosteiro. Benedito VI foi estrangulado em 974, depois da morte de seu mentor, o Sacro Imperador Romano-Germânico Oto Gregório V ascendeu ao papado em 996, sob a égide de Oto III, e foi o primeiro papa alemão, mas, nessa condição, teve de enfrentar um antipapa, constituído por nobres romanos locais. O infeliz foi perseguido e capturado por tropas papais e imperiais, teve orelhas, nariz e língua amputados, e foi enviado para um mosteiro, onde, por incrível que pareça, sobreviveu aos cinco papas seguintes. Porém Gregório não chegou a transpor o milênio, morrendo em condições misteriosas, embora não de todo inesperadas, em 6 de Fevereiro de 999.

Coube, portanto, a um novo papa conduzir a Igreja Cristã pelos dias tenebrosos do fim do milênio. O único sucesso do papado no século que se encerrava foi difundir a mensagem cristã na Islândia, para o extremo desconforto de Erik, o Vermelho. O papa escolhido por Oto III causou estranheza e talvez tenha espalhado o pânico entre alguns crentes ansiosos.
No último dia de 999, uma grande multidão de devotos chorosos esperava pelo assustador Dia da Ira. Muitos pobres entraram na Basílica de São Pedro com hábito fúnebre, portando cinzas, depois de passarem meses em penitência e autoflagelação. Seus pavores se agravaram ainda mais ao olharem para o novo papa que celebrava a missa. Era Silvestre II, também conhecido como Gerbert d’Aurillac, o primeiro papa francês. Dizer que a massa esperava que chifres brotassem da cabeça dele seria eufemismo.
Gerbert nasceu na região de Auvérnia, França, por volta de 950. Aos 13
anos, ingressou no Mosteiro de São Geraldo, onde foi descoberto por um rico conde viajante de Barcelona, que o levou para ser educado na Espanha, quando tinha 17 anos. A Espanha, na época, situava-se na fronteira entre os impérios cristão e muçulmano. Gerbert passou algum tempo em Barcelona, mas também, principalmente, em Andaluzia, Sevilha e Córdoba, cuja maior biblioteca continha 4 mil volumes – o quádruplo de qualquer outra coleção no mundo cristão. Lá, o jovem Gerbert aprendeu matemática; os árabes haviam inventado a astronomia, o conceito de zero, o próprio alfabeto, e muito mais.

Tempos depois, Gerbert conceberia um tipo de órgão a vapor e faria uso do ábaco. Em 969, foi levado para Roma, em época de relativa paz no papado, e impressionou tanto o papa quanto o imperador Oto II, que o contratou como tutor do filho. Não admira, portanto, que quando Oto III assumiu o poder Gerbert logo tenha ascendido a posições de eminência eclesiástica os também arcebispados de Reims e Ravena. Quando Gregório morreu repentinamente, o imperador pouco hesitou em nomear Gerbert papa. O novo pontífice assumiu o nome de Silvestre, em homenagem a Silvestre I, do século IV, associado próximo de Constantino, o Grande.


Não foi, porém, nada ortodoxo incumbir alguém com formação tão heterodoxa de função mais voltada para a simples sobrevivência que para a educação do povo, religiosa ou científica. Muitos eram os rumores sobre Gerbert: que ele tinha conquistado o papado jogando dados com o diabo, e que entregaria a cristandade a Satã ao soar a meia-noite; que havia roubado um livro de sortilégios de um filósofo árabe, na Espanha, e que tinha escapado por obra e graça da feitiçaria; que se amancebara com um demônio feminino, Meridiana; e que tinha concebido e esculpido uma cabeça de bronze que pressagiara o retorno do diabo para buscá-lo, rezasse ele algum dia em Jerusalém.

No final das contas, a última missa, evidentemente, transcorreu em paz, embora em meio a grande ansiedade. E o Te Deum laudatório foi cantado em São Pedro enquanto muitos fiéis, com certa humildade, desciam das montanhas ou acorriam de onde quer que estivessem para assistir ao iminente Fim do Mundo, como tantos outros devotos de outras crenças, mil anos depois, afluiriam aos caixas automáticos para usar com sucesso seus cartões magnéticos, apesar das ameaças do vírus do milênio. Gerbert, contudo, cometeu o erro de rezar missa na Igreja de Santa Maria de Jerusalém, em Roma, e, de imediato, caiu. Em nada contribuiu para a reputação dele que lhe tivessem cortado as mãos e a língua, em penitência, e que houvesse ele pedido aos cardeais que o esquartejassem e espalhassem seus pedaços pela cidade. Em vez disso, colocaram-no numa tumba com uma inscrição estranha, que deu origem à lenda duradoura de que seus ossos chocalhariam para pressagiar a morte de um papa.

Dinheiro não traz felicidade... mas compra quadrinhos, que é quase a mesma coisa!

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