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Lições Aprendidas em La Casa de Papel aplicadas em Gerenciamento de Projetos

 

Furor do início de 2018 na cultura pop, La Casa de Papel, série espanhola e original Netflix em 22 episódios (distribuídos em duas partes) arrebanhou fãs por todos os lados devido a cativante trama onde um grupo de assaltantes põe em prática um plano altamente elaborado para invadir a Casa da Moeda da Espanha. A história mostra como o grupo liderado pelo “Professor”, se prepara, executa, monitora e finaliza o complexo e audacioso plano de invadir uma casa da moeda e imprimir suas próprias notas de Euros sem marcações e livres de rastreio.

Com a liberação oficial dos 9 últimos episódios da série no último dia 06 de abril de 2018, podemos enfim avaliar as lições aprendidas desta que provavelmente é uma das melhores ilustrações sobre Gestão de Projetos já produzida.

Cuidado, se você até o momento não assistiu à série, o texto a partir deste ponto passa a a apresentar spoilers e pode comprometer parte da diversão. Recomendo fortemente que assista todos episódios e volte para terminar de ler este texto.

Esta análise não tem como intenção ser uma crítica ou resenha sobre a série e sim, traçar um paralelo com os Conceitos e Práticas da Gestão de Projetos. Assim, listamos as seguintes Lições Aprendidas, divididas por Grupos de Processos de Gerenciamento:

  1. Caracterização:
    • “Um projeto é um esforço temporário empreendido para criar um produto, serviço ou resultado único” (Guia PMBOK® 6ª edição, p. 4). O assalto planejado e executado tinha exatamente esta definição, com data e horário para início e fim, além do fato de apresentar um resulto inédito, que era invadir a Casa da Moeda espanhola e produzir milhões de Euros não rastreáveis.
    • “O gerenciamento de projetos é a aplicação de conhecimento, habilidades, ferramentas e técnicas às atividades do projeto a fim de cumprir aos requisitos”. (Guia PMBOK® 6ª edição, p. 10). O grupo liderado pelo Professor (neste caso, nosso Gerente de Projetos) foi selecionado a partir de habilidades específicas e fez uso de ferramentas previamente avaliadas para a execução do projeto.
    • Feito por pessoas. Um projeto, por mais tecnológico que seja, ainda sim é executado por pessoas, que possuem objetivos e anseios pessoais, adicionando suas próprias necessidades e expectativas.
    • Sofre Restrições. As restrições são muito claras ao longo do planejamento e preparação do assalto, servindo de norte para as linhas de base que o grupo possuía.
    • Causas de Fracasso. Se você assistiu a temporada completa, viu que o assalto foi realizado com sucesso. Porém entender bem quais seriam as causas prováveis de fracasso foram importantes:
      • Falta de alinhamento de expectativas dos envolvidos
      • Requerimentos mal definidos
      • Problemas de comunicação
      • Incapacidade de prever riscos
      • Falta de preparo do time (incluindo o Professor/GP)
      • Planejamento inexistente ou insuficiente
      • Limitação de recursos

 

  1. Iniciação:
  • Selecionar o gerente de projetos: neste caso, o Professor
  • Determinar a cultura e os sistemas existentes da empresa: entender tanto da fabricação de dinheiro quanto dos aspectos penais envolvidos ajudaram a conduzir a trama em vários momentos.
  • Reunir processos, procedimentos e informações históricas: o próprio Professor já tinha como experiência o caso do assalto conduzido pelo pai e seu fracasso.
  • Dividir o projeto em grandes fases: a todo momento fica clara divisão em fases desse audacioso projeto de assalto, tanto no planejamento quanto na execução.
  • Identificar requisitos, premissas, riscos e restrições iniciais, além dos acordos existentes: a identificação destes itens de antemão ajudou a conseguir o compromisso dos envolvidos com o plano.
  • Criar objetivos mensuráveis: estava claro a quantia que cada um receberia e os impactos do atingimento dos objetivos em relação a tempo, identidade, sobrevida à margem da lei, etc.
  • Avaliar viabilidade de projetos e produtos de acordos com as restrições: um plano tão audacioso poderia ser entendido como inviável. Somente com a clareza exposta ao time foi possível validar o “projeto”.
  • Identificação e análise das Partes Interessadas, suas expectativas, influência e impactos: ponto chave da série, não só o profundo conhecimento das expectativas e comportamentos dos integrantes da quadrilha, quanto da equipe antissequestros e dos funcionários da casa da moeda, foram fundamentais para o sucesso da ação. Nota, esse processo de identificação foi visto e revisto ao longo da execução, não somente no planejamento.

 

  1. Planejamento: a fase de planejamento é um dos destaques desta série. Ele é apresentado parcialmente no primeiro episódio e em flashbacks até o último. Toda vez que é mostrada uma situação aparentemente sem saída, logo em seguida é apresentada uma cena do passado mostrando como a situação foi planejada e o risco, avaliado.
    • Coletar os Requisitos: durante os cinco meses de planejamento do assalto, vemos vários momentos de coleta de requisitos, como por exemplo, as visitas disfarçadas à Casa da Moeda, para adquirir informações, avaliar riscos e planejar futuras contingências.
    • EAP (estrutura analítica de projeto): em vários momentos vemos um esboço de EAP na lousa que o Professor utilizar durante o planejamento.
    • Processo iterativo: cada vez que planejamento avançava um pouco, novos riscos iam sendo identificados e as sequências de atividades, sendo adaptadas para responder à necessidade.
    • Cronograma: um dos pontos chave da trama. Seguir o cronograma e mantê-lo dentro do planejado (incluindo a manipulação de informações para a polícia). Ele é apresentado ao espectador conforme a trama avança, porém ele é muito claro para o time. Entender o caminho crítico também foi fundamental para a boa comunicação do time.
    • Plano de Comunicação: toda engenharia de comunicação (parte tecnológica – como) quanto a sua hierarquia (quem fala com quem) e frequência (quando) é um dos pilares, se não principal, do sucesso. Toda a gestão da execução foi feita remotamente pelo Professor, daí a grande valia de um plano de comunicação bem feito.
    • Plano de Controle da Qualidade: havia até um membro específico para o controle da qualidade do produto (dinheiro impresso) dentro do time: Nairobi. Entender nível de qualidade exigido foi determinante para o projeto, afinal as notas não deveriam ser rastreáveis e aceitas sem suspeitas.
    • Gerenciamento dos Riscos: aqui reside um dos charmes desta série. A cada risco que o time ou plano era exposto durante a execução, por mais sem saída que parecesse, nos era apresentado um flashback mostrando como ele foi avaliado e qual plano de contingência havia sido determinado. Volta a cena para o presente e os membros passavam a executar as ações de contingência tal qual planejado. É louvável o engajamento do time ao plano de contingência de cada risco.
    • Gerenciamento da Mudança: o ambiente de um projeto, por mais planejado que o seja, ainda é um ambiente de incertezas. Validar um plano de mudanças antes de iniciar a execução era fundamental. Vemos no decorrer da trama que havia uma estrutura clara de gestão da mudança – ela era solicitada, avaliada, aprovada e aí sim, executada. As partes mais qualificadas eram as responsáveis por essa avaliação.
    • Registros: todo plano foi registrado durante a fase de planejamento, para facilitar o entendimento do grupo. Porém, se tratando de um crime, a destruição desta informação era fundamental, tamanho o nível de detalhamento. Isso rendeu bons episódios com a polícia no processo de investigação.

 

  1. Execução: é o que realmente queremos ver em um filme/série sobre assaltos e onde justamente somos capturados pela trama.

A. Papel do Gestor (ou do “Professor”):

  • Facilitar o trabalho em equipe, observado o que se passava fora da Casa da Moeda, por exemplo.
  • Integrar as várias ações que estão acontecendo simultaneamente, pois haviam frentes de trabalho distintas, para executar o plano e confundir a polícia
  • Orientar o desempenho das atividades planejadas, pois na dúvida, era o Professor a pessoa com o plano completo à mão.

B. Desenvolvimento do time: os cinco meses de preparação também serviram para desenvolver o time, capacitando-o para atividades específicas para o assalto. Haviam ações em caso de prisão, ferimentos ou condução da produção do dinheiro.

C. Ciclo de vida de uma equipe: vemos claramente esse ciclo do primeiro ao último episódio (nota especial para o último neste caso).

  • Formação
  • Conflito
  • Acordo
  • Desempenho
  • Dispersão

D. Regras básicas aplicadas no assalto:

  • Expectativas claras sobre o comportamento de membros da equipe
  • As regras devem ser discutidas com os membros
  • Todos devem ser responsáveis por garantir que as regras sejam aplicadas
  • Resultado: reduzir os mal-entendidos e aumentar a produtividade

 

  1. Monitoramento e Controle: um dos grandes processos explorados também pela série.
    • Previsão (linha de base) vs. Real: o Professor está constantemente comparando o andamento do assalto com o plano
    • Análise de desvios: impactos e projeções dos ocorridos eram avaliados muitas vezes envolvendo o time
    • Análise do presente e ter previsões do futuro: foi fundamental para o final da série, na iminência de invasão pela polícia.
    • Aceite ou rejeição dos resultados: como tratava-se também de uma atividade envolvendo risco de morte, causou sempre muita comoção ao time.
    • Fornecimento de informações para suportar relatórios de status, progresso e previsão: as ligações de controle eram fundamentais para o andamento do assalto e indicariam se algo estava fora de controle também do lado de fora da Casa da Moeda
    • Identificação de novos riscos e monitoramento dos riscos existentes: como dito anteriormente, um dos pontos chave para prender o espectador.
    • Solicitações de Mudanças: a verdadeira queda de braço entre polícia e assaltantes.

 

  1. Encerramento: talvez o grupo de processos menos explorado, porém desde o princípio, havia um plano para o final da execução e como proceder para que, ao final de contas, pudessem desfrutar do objeto do roubo e realizar suas expectativas.
    • Desmobilizar a equipe: a dispersão dos assaltantes ao final da execução (genial, diga-se de passagem) foi concluída com êxito pelos sobreviventes (sim, houve mortes).
    • Liberação dos recursos: podemos entender que os reféns eram parte dos recursos do assalto. Liberá-los com vida e ilesos era objetivo dos dois lados, porém para os assaltantes, traria a comoção pública a seu favor.
    • Feedback: por vários momentos o envolvimento emocional pôs em risco a operação, porém ao final, aceitas as mudanças e passado um ano após o evento, vemos como fico a vida do Professor e temos o feedback de seu relacionamento.

 

Esta série oferece uma rica gama de análises, nas áreas de Comunicação, Gestão de Pessoas, Negociação ou mesmo Estratégia. Quando uma obra de ficção nos brinda com esse grau de riqueza, em termos de diversão e conhecimento, podemos dizer realmente que atingiu o sucesso!

A reprodução e/ou divulgação deste artigo é permitida mediante liberação e citação do autor – Fabio Camatari.

<p>Dinheiro não traz felicidade… mas compra quadrinhos, que é quase a mesma coisa!</p>

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